Ensaio sobre a legitimação
"Não vá o sapateiro além das sandálias" "Cada macaco no seu galho"
Expressões acauteladoras. Subjacente está a sectorização social sob a qual se estruturam autoridades. Não vá quem não é agricultor falar de agricultura, e, entre aqueles que são, mais legítima é a opinião do experiente ou maior do experimentador com a indumentária do científico.
É uma estratégia útil para mergulhar no estudo, evitando um influxo constante de argumentos imaturos e informação menos relevante, mas carrega consigo o perigo do elitismo tecnocrático com as distorções de classe e de poder. Se a informação mais fidedigna deve vir da autoridade, também a autoridade pode ter intenções pessoais ou de classe, colocando a sua narrativa como a dominante e tornando socialmente ilegítima a sua contestação, ainda que tenha mérito.
A legitimação social provém de rituais.
Tradicionalmente é associada à experiência, onde o patriarca ou a matriarca são figuras de autoridade pelo seu corpo de vivências, ou o líder espiritual pelo seu acesso a um simbolismo oculto, ou a demonstrada capacidade e competência aos pares.
Hoje não é diferente, mudamos-lhe os contornos: é o (per)curso que dá a corpo de saberes que para outros, não cursantes, é oculto; é o trajeto profissional que cunha a experiência, tanto maior quanto a grandeza do lugar onde se serviu, sob alçada de um supervisor destacado; e por fim é o eco que faz das estruturas de poder, confirmando a narrativa "oficial". A legitimação é o diploma, a eleição, o apadrinhamento por um benfeitor enaltecido e/ou poderoso, é a competência observada pela comunidade, a competência abstrata de um CV bem composto, são as previsões bem feitas, as demonstrações de poder, o domínio de linguagens ocultas, a eleição.
Num mundo especializado afunilam-se os saberes em mais caixas de legitimação, que podem se ver herméticas e patetas. Não deverá o não legislador falar de leis? O paciente falar de saúde? Não só falar, mas querer tomar parte na discussão profunda de como estruturar as várias partes do todo que a vida toca.
Quantas vezes não ouvimos o tecnocrata ou o oportunista a retirar legitimidade a uma opinião para a silenciar? Aí a ideia anunciada é descartada sem ser contemplada para impor uma outra. Haverá justiça nesta atuação?
Creio que não.
Claro que é necessária a abertura ao fluxo de ideias. Só por isso uma imposição autoritária sobre a opinião já é condenável, mas noutros é um ato de opressão criminoso, nomeadamente quando o tema em si afeta, direta ou indiretamente, a pessoa que se expressa, o seu território, a sua comunidade, a sua identidade ou a sua Humanidade. Se pensarmos bem, pouco mais interessa falar e tratar. Nessas coisas a autoridade singular não deve ser uma força silenciadora.
Não cabe ao universo coletivo aberto o aprumar dos fluxos de ideias, aprimoradas pela inter-subjectividade experiencial e memória de grupo?
É sempre legítimo a pronúncia sobre o que é de interesse, nos termos em que a sinceridade e abertura são a paisagem do diálogo.
Expressões acauteladoras. Subjacente está a sectorização social sob a qual se estruturam autoridades. Não vá quem não é agricultor falar de agricultura, e, entre aqueles que são, mais legítima é a opinião do experiente ou maior do experimentador com a indumentária do científico.
É uma estratégia útil para mergulhar no estudo, evitando um influxo constante de argumentos imaturos e informação menos relevante, mas carrega consigo o perigo do elitismo tecnocrático com as distorções de classe e de poder. Se a informação mais fidedigna deve vir da autoridade, também a autoridade pode ter intenções pessoais ou de classe, colocando a sua narrativa como a dominante e tornando socialmente ilegítima a sua contestação, ainda que tenha mérito.
A legitimação social provém de rituais.
Tradicionalmente é associada à experiência, onde o patriarca ou a matriarca são figuras de autoridade pelo seu corpo de vivências, ou o líder espiritual pelo seu acesso a um simbolismo oculto, ou a demonstrada capacidade e competência aos pares.
Hoje não é diferente, mudamos-lhe os contornos: é o (per)curso que dá a corpo de saberes que para outros, não cursantes, é oculto; é o trajeto profissional que cunha a experiência, tanto maior quanto a grandeza do lugar onde se serviu, sob alçada de um supervisor destacado; e por fim é o eco que faz das estruturas de poder, confirmando a narrativa "oficial". A legitimação é o diploma, a eleição, o apadrinhamento por um benfeitor enaltecido e/ou poderoso, é a competência observada pela comunidade, a competência abstrata de um CV bem composto, são as previsões bem feitas, as demonstrações de poder, o domínio de linguagens ocultas, a eleição.
Num mundo especializado afunilam-se os saberes em mais caixas de legitimação, que podem se ver herméticas e patetas. Não deverá o não legislador falar de leis? O paciente falar de saúde? Não só falar, mas querer tomar parte na discussão profunda de como estruturar as várias partes do todo que a vida toca.
Quantas vezes não ouvimos o tecnocrata ou o oportunista a retirar legitimidade a uma opinião para a silenciar? Aí a ideia anunciada é descartada sem ser contemplada para impor uma outra. Haverá justiça nesta atuação?
Creio que não.
Claro que é necessária a abertura ao fluxo de ideias. Só por isso uma imposição autoritária sobre a opinião já é condenável, mas noutros é um ato de opressão criminoso, nomeadamente quando o tema em si afeta, direta ou indiretamente, a pessoa que se expressa, o seu território, a sua comunidade, a sua identidade ou a sua Humanidade. Se pensarmos bem, pouco mais interessa falar e tratar. Nessas coisas a autoridade singular não deve ser uma força silenciadora.
Não cabe ao universo coletivo aberto o aprumar dos fluxos de ideias, aprimoradas pela inter-subjectividade experiencial e memória de grupo?
É sempre legítimo a pronúncia sobre o que é de interesse, nos termos em que a sinceridade e abertura são a paisagem do diálogo.
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